Friday, 22 July 2011

Estamos no 'Buraco de Jackson'


Deveríamos ter ido hoje para Cody, que é uma cidadezinha que fica à margem leste do Parque Nacional de Yellowstone.

Acontece que nosso voo, pela United Airlines, atrasou muito e não saiu de San Francisco a tempo de conseguirmos pegar a conexão em Denver.

A companhia aérea alegou que não tinha qualquer responsabilidade com o atraso do voo, porque este atraso tinha sido causado por problemas de mau tempo. Para as companhias aéreas americanas, mau tempo é uma saída para não indenizar o passageiro, ou mesmo arranjar hotel, se for o caso de o passageiro ficar preso em alguma cidade.

Após muita argumentação (e alguma perda de paciência, com falatório exaltado, por parte dos dois brasileiros viajantes, Angela e eu), conseguimos (não sei por que milagre) um 'voucher' (='vale') refeição e uma pernoite em um hotel em Denver, Colorado, onde tivemos nossa escala.

Uma das razões de nossa irritação foi que nossa conexão partiu às 19:27 e nós chegamos ao Portão 94 (vindos, em uma correria insana, com Angela controlando o seu joelho problemático e eu levantando duas malas "no muque" e bufando alto, para impressioná-la e aos circunstantes) às 19:34. Por sete míseros minutos a United Airlines nos deixou completamente "na pior".

Tentaram nos encaixar em um voo para Salt Lake City, com conexão para Cody no dia seguinte, somente, às 23 horas. Isso significaria ficar aproximadamente 20 horas em uma cidade (Salt Lake City) que não nos interessaria minimamente conhecer, em parte por não sermos mórmons...

Recusamos esta conexão e fomos conversar com outra funcionária da United Airlines, que nos reservou um voo para a cidade chamada Jackson Hole, ou seja, Buraco do Jackson.

Os americanos falam "Jackson Hole" (=Buraco do Jackson), ou simplesmente "Jackson", talvez por vergonha do nome da cidade, talvez pela mania que eles têm de abreviar tudo, não sabemos ao certo.

Chegamos a Buraco do Jackson às 10 da noite.

Enquanto esperávamos o voo em Denver, consegui mudar, por telefone, nossa reserva de carro para o Buraco do Jackson, ao invés da reserva original em Cody / Yellowstone.

Descobrimos que a cidade Buraco do Jackson fica ao sul do Parque de Yellowstone, ao passo que Cody fica a leste.

No avião perguntamos como era o Buraco, se tinha hotéis, se era longe do parque.

Os nossos interlocutores nos disseram que havia muitos hotéis.

Alugamos o carro, procuramos hotel, todos estavam lotados.

O funcionário da Hertz, empresa de aluguel de carros, telefonou para uns 5 hotéis, motéis, só não telefonou para 'bordéis': tudo lotado.

E a loja de aluguel no aeroporto estava fechando. E o funcionário, às 22:40 já querendo ir para casa. E nós, fazendo caras de idiotas, para talvez causar compaixão.

Acabamos encontrando um hotel muito mais caro do que queríamos, o último quarto disponível. Pagamos USD$ 175.70 por uma noite.

Mas estávamos no aeroporto, tendo que apanhar o carro que recém alugáramos. Não sabíamos como chegar ao tal estacionamento da Hertz. Fomos andando. Vimos uns números, procuramos a placa do carro.

Nada.

Não encontramos o carro.

Mas o funcionário da Hertz nos disse para apertar o alarme do carro, junto da chave, que ele apitaria.

Angela sugeriu: aperte o alarme "na doida", que a gente acaba encontrando. Dito e feito: apertei, apertei, apertei, e um carro luxuosíssimo me respondeu "Howdy Stranger!". Vejam foto do carro alugado, 'Nosso Possante', foto esta tirada da internet. Amanhã tiraremos 'fotos de verdade', do próprio carro, para vocês verem como o carro é um fenômeno de lindo.

Acendeu várias luzes, só não buzinou espontaneamente.

Entramos no carro, a turista-furacão e eu.

Eu não sabia dirigir um carro luxuosíssimo (para quem entende de carro, é um Chevrolet Traverse LT).

Ele tem muitas e muitas luzes. Em verdade é todo iluminado por dentro e por fora: uma verdadeira árvore de Natal, completou a Angela.

Saí de-va-gar-zi-nho para me acostumar com carro hidramático (que dirigira no ano 2.000, quando aqui viemos).

O carro estava com o ar condicionado ligado, soprando em cima de mim. A temperatura no Buraco do Jackson era de 16 graus. E chovia um pouco. E eu apertava botões e o rádio falava. E o ar condicionado ficava mais forte. E eu precisava, urgentemente, saber como apagar as luzes do farol dianteiro, para não atrapalhar os motoristas vindos na direção contrária.

A escuridão, na estrada, era total. E o carro luminoso que eu dirigia parecia uma "princesa fulgurante", de tantas luzes piscantes.

Para animar um pouco a viagem, um carro de polícia nos parou. Pedi inúmeras desculpas ao Obama, à Michele, à família real (por via das dúvidas...). Aproveitei a oportunidade e pedi informações ao "Seu Guarda" (que eu chamava de 'Officer', achando que poderia escapar da multa enorme).

O tal 'officer' me disse: "I stopped you because you were swerving all over the road, Sir, crossing the line between the lanes all the time!" Aí, fiz a velha voz do John Wayne, pedi perdão, pedi ajuda, uma lágrima furtiva desceu pela minha cicatriz, abaixo do olho e, Caros Leitores, FUI PERDOADO!

O guardinha me deixou ir embora e, tendo me ensinado o caminho para o tal do Super 8, nosso hotel-ladrão (que nos cobrou os tubos, por uma mera noite de soneca), cheguei aqui, meio "aos trancos e barrancos".

Eu poderia, evidentemente, escrever páginas e mais páginas sobre o tal Chevrolet que estou dirigindo. Não aborrecerei meus Caros Leitores com conversa fiada e desinteressante.

Desliguei o carro, ao chegar ao hotel. Não consegui desligar as luzes internas. Confessei isso à Angela. E Angela, por ser altamente entendida de mecânica de automóveis de luxo, sentenciou: "você tem de desligar as luzes internas, de outra forma poderá o super carro ficar sem bateria amanhã pela manhã".

Acreditei nela, voltei, na chuva, para o carro. Felizmente, o carro se apiedara de mim e se desligara as luzes automaticamente, para minha felicidade momentânea. Quase cantei "Allons Enfants..." de tanta alegria, para não ser identificado como brasileiro bagunceiro...

Amanhã é outro dia e veremos como será nossa viagem, de carro, entre o Buraco de Jackson e Cody, para onde deverá ter sido enviada nossa mala, onde deverá chegar às 17 horas.

Por ora, estamos 'nos virando' com roupa improvisada, que Angela lavou e está secando a ferro.

O hotelzinho, chamado Super 8, tem rede sem fio e, por isso, vocês estão sabendo, em primeira mão, o que a turista-furacão está aprontando por aqui.

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