Esta residência estudantil, chamada The Convent, é uma residência que faz parte de um grupo maior de residências estudantis, espalhadas por Berkeley. Fazendo, assim, parte de uma Cooperativa Residencial, ou Coop.
Quem se interessar por uma visão objetiva desta residência é só ler, na Wikipedia, sobre a Berkeley Student Cooperative, onde todos os dados estatísticos relevantes estão expostos (quantos são os residentes, como funciona, quais os preços). Está tudo lá e, se confrontado com o que eu estou contando aqui, verão, com maior clareza, o que é fato e o que é fantasia, no meu relato.
Se querem um conselho de amigo, não cansem vossas belezas: aqui é quase tudo fantasia!
Todas as residências são (parcialmente) administradas pelos próprio estudantes.
Descobri ontem que são 25 residentes, aqui no The Convent. É diferente para um brasileiro de classe média entender exatamente o que faz um jovem, entre 25 e 35 anos de idade, resolver morar nesse sistema comunitário, onde as limitações pessoais são inevitavelmente muito maiores do que se esse estudante de pósgraduação (pois aqui só há estudantes de pós) fosse viver em uma 'casa montada'.
Só fica mais plausível pensar que esta é uma situação temporária, na qual os cooperados se encontram e precisam economizar dinheiro, já que morar aqui sai pela metade do preço de alugar um apartamento na cidade. Mas não sai tão barato assim quanto se poderia imaginar. Antes de vir para cá o Arlo me mandou uma página da internet, onde a gente pode ler sobre o regulamento dessas casas e sobre os preço que eles pagam por semestre, ou por ano.
Para ter direito de morar aqui o postulante tem de preencher uma série de requisitos, que não sei bem quais sejam, mas acredito que a procura de lugares seja bem maior do que a oferta.
Muita da comida que aqui se come vem da Coop central, que faz compras em grandes quantidades a preços bem menores. Pão, por exemplo, chega na terça-feira à noite. Uma quantidade enorme de pães, que ficam em caixas grandes de plástico e de onde os residentes se servem à vontade.
Hoje, domingo, o pão está com cheiro de azedo, então acredito que poucas pessoas se animem a comer pão. Pessoalmente, resolvi esperar até terça para voltar a comer pão. O problema não é comprar o pão novo. O problema é, quase sempre, onde guardar o pão que não se comeu. Uma cozinha para 25 pessoas, uma geladeira para 25 pessoas, um armário de colocar comida para 25 pessoas. Acaba havendo pouco espaço para se ficar comprando alguns mantimentos. Sim, eu poderia comprar pão e guardar aqui no quarto mas aí eu estarei misturando comida com objetos pessoais e isso pode (não digo que necessariamente vá) atrair insetos.
Não sei se o Obama deixou que houvesse insetos por aqui.
Acho que, apesar de seus esforços, ainda há muito insetos rondando a Casa Branca e vizinhança, as adjacências e as adjacências das adjacências... Então, concluo que não é imprescindível que eu compre outro pão (comprei um anteontem e fiquei sem ter onde botar o resto do que não comi).
Isso nos leva a um outro fato da economia americana: aqui tudo é mega. Ao comprar pão, é difícil achar um pão que dure 1 ou 2 refeições. Quase sempre o pão dura 5 dias. E, assim, cansa de comer aquele mesmo pão.
Os cereais matinais vêm em caixas enormes. Consegui, com algum esforço, comprar um pacote de corn flakes do tamanho de um pacote que se vende no Brasil. Os pacotes que eles vendem aqui são muito grandes. Então você fica com aquela caixa muito grande, tendo que guardar o que não comeu na dispensa. Sim, a dispensa é grande e é muito confusa, com muitos pacotes, de muitas coisas, com os nomes dos donos às vezes colados no tal pacote.
Para eles, que estão acostumados, isso é super normal. Para uma pessoa de fora, é um pouco mais complicado.
Comprei pó de café e não sei fazer café. Estou há 2 dias sem tomar café (o que é muito saudável, para quem toma 2 litros de café diários), porque não quero passar pela burocracia de aprendizado de fazer café (perguntar onde estão os coadores de papel, descobrir as panelas, descobrir a torneira/bica onde há água potável). É super simples mas não é tão simples assim.
Há 2 ou 3 pias diferentes, na cozinha. Há 2 ou 3 torneiras/bicas, por onde sai água em diversas temperaturas, com avisos por toda a parte da cozinha, dando todo o tipo de instrução. Ou você decide: quero um cafezinho agora e, portanto, aprende, pergunta, se instrui, e faz o tal cafezinho, ou toma um café ali na esquina, que é infinitamente mais fácil.
Você não pode e não deve passar o dia perguntando às pessoas, como se faz isso, aquilo, aquiloutro. Sem querer passar o dia todo perguntando, você já tem de perguntar muito. Há cerca de 10 diferentes latas de lixo, para 10 diferentes tipos de lixo, e as indicações não estão sempre claras, de onde se deva jogar comida usada, ou papel para o lixo, ou plástico, ou cartolina.
Alguns desses produtos, o Arlo me explicava ontem, são para fazer "compost" (=adubo?). Nessa lata de lixo do "compost" não se pode jogar plástico.
As latas de lixo não estou no mesmo lugar. Estão em vários lugares, pertos uns dos outros, mas que são bem confusos, para quem está chegando. Eu me perco o tempo inteiro, dentro da casa, porque há 2 escadas, 2 conjuntos de banheiros. Moro em cima e as partes comuns (cozinha, dispensa, lugares de lavar louça, lugares de cozinhar, lugares de guardar panelas) são todas na parte de baixo da residência.
É evidente que só vou aprender a me orientar mais ou menos, quando estiver na hora de ir embora...
Resumo da ópera: é tudo muito, muito simples; mas muito, muito complicado!
Uma clarificação: esse pão que a gente recebe em grandes quantidades, é uma doação gratúita. É a sobra de uma padaria. Como esse produto não conseguiu vender, então já chega aqui um pouco vencido e estraga rápido.
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